Os bebês sonham na barriga da mãe?

Coluna do especialistaGravidez

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A maior parte das 40 semanas (ou 280 dias) da gestação o bebê passa dormindo. São em média 18 horas de sono por dia, com apenas oito horas desperto, quando você o sente se mexer mais, dar chutes e enfiar aquele pezinho entre suas costelas.

Com tanto tempo de sono, seria razoável pensar que os bebês sonham ainda na barriga da mamãe. Ao mesmo tempo, você pode se perguntar: sonham com o que? Sonham como? Se os sonhos são expressões de nossas vivências e precisam de referências externas para acontecer, como alguém que ainda está em plena formação de órgãos e tecidos e não sabe nada do mundo exterior poderia sonhar?

No post de hoje vamos falar sobre essa que é uma das muitas curiosidades que as mamães têm sobre seus bebês e sua vida intrauterina: os bebês sonham? Confira!

Os bebês sonham na barriga da barriga?

A resposta é sim. Estudos que utilizaram imagens ecográficas, ultrassonografia e exames de eletrocardiograma identificaram que entre a 32ª e a 36ª semana da gravidez os fetos têm movimentos oculares rápidos, que indicam que estão no ciclo de sono ativo ou sono REM (Rapid Eyes Movement) — que é quando sonhamos. O feto passa 80% do seu tempo de sono no estágio REM, logo, pode sonhar bastante.

Em bebês prematuros, o sono REM foi identificado já na 28ª semana da gestação, sugerindo que esse ciclo do sono também poderia ocorrer na vida intrauterina. Utilizando ultrassonografias de tempo real foi possível verificar que as alterações evolutivas do sono que acontecem no feto são compatíveis às percebidas em bebês prematuros que nasceram com a mesma idade gestacional. No entanto, como têm influências exteriores e ambientais diferentes, o comportamento de fetos e prematuros durante o sono também é diferente.

Com o que os bebês sonham na vida intrauterina?

Não dá para saber ao certo com o que os bebês sonham quando estão na barriga de suas mães, já que seus neurônios e as sinapses que realizam ainda estão em formação. Além disso, não é possível medir suas ondas cerebrais. No entanto, acredita-se que, como todos nós, eles sonham com as experiências e sensações vividas ao longo do dia, nos momentos em que estiveram despertos.

final da gravidez é o período em que há mais conexões entre os neurônios e as sinapses são mais intensas. Para que elas ocorram é preciso estímulo — por isso, quanto mais você falar com seu bebê, contar histórias, colocar música para ele ouvir, mais vai contribuir para o desenvolvimento de seu cérebro ainda na barriga.

E quais são as vivências do bebê no útero?

Pode não parecer, mas a vida no útero é bastante agitada e muitas são as vivências que o bebê pode ter para formar seus sonhos. Ele chupa dedo, faz xixi, engole e expele o líquido amniótico (treinando seu sistema digestivo), brinca com o cordão umbilical, soluça, dá cambalhotas e gira em torno do próprio corpo (antes claro do espaço ficar muito apertado), boceja e até mostra a língua.

Aos dois meses de gestação o feto já percebe o mundo exterior por meio de estímulos hormonais. Os nervos já começam a chegar a suas mãos e pés e ele tem as primeiras sensações de tato. Ele já é capaz de sentir o contato com a mãe e percebem as mudanças químicas como o estresse, a euforia e a ansiedade.

Aos quatro meses o cérebro do feto começa a decifrar os sentidos. Uma boa parte de suas células já transmitem impulsos nervosos, como os do tato e da audição. Já há nervos em quase todo o seu corpo e o bebê já é capaz de sentir prazer com a massagem que a mamãe faz na própria barriga.

Aos seis meses de gravidez quase todos os sentidos do feto funcionam. Ele já chora e quase sorri. É capaz de sentir o gosto e o cheiro do líquido amniótico. Os primeiros estímulos visuais que seu cérebro recebe o permitem distinguir o claro do escuro — se você colocar uma fonte de luz na sua barriga, como uma lanterna, seu bebê será capaz de perceber a diferença de luminosidade. A audição já está toda desenvolvida e ele é capaz de ouvir os sons do mundo exterior, reconhece a voz materna e começa a se habituar à sonoridade da língua.

Como esses estímulos se traduzem em sonhos para o feto?

As pessoas que nasceram cegas não sonham com imagens, já que não há referências para que o cérebro as forme. Seus sonhos são compostos por sensações como cheiros, sabores, texturas e emoções. Assim também seriam formados os sonhos do bebê no útero.

Ele repassa as emoções que vivenciou, como o carinho da mãe na barriga, os sons que chegaram do mundo exterior, o acalento da voz materna entoando uma canção ou conversando com ele. O gosto de algo diferente que a mamãe comeu e alterou o sabor do líquido amniótico o deixando amargo ou mais doce.

Os bebês também têm pesadelos quando ainda estão no útero?

As emoções negativas — como a ansiedade, o medo, a tristeza e o estresse — também são sentidas pelo feto. O que sugere que esses sentimentos também possam ser percebidos como vivências e, assim, teriam influências sobre os sonhos e poderiam deixar o sono do bebê mais agitado, como se tivesse um pesadelo.

Muitos pesquisadores acreditam que o bebê pode assimilar experiências traumáticas ainda na barriga, já que ele também compartilha as mudanças físicas e emocionais da mãe. No final da gravidez as áreas do cérebro responsáveis pela formação de memória começam a funcionar e essas experiências seriam armazenadas em suas memórias inconscientes. É importante lembrar que uma das funções do sono é consolidar nossas memórias e aprendizados do dia.

Durante a gestação não apenas os órgãos, tecidos e sistemas orgânicos do bebê estão em formação. É também um intenso momento de aprendizado para o feto e de desenvolvimento de suas primeiras emoções afetivas e traços de personalidade.

Ofereça a seu bebê uma gravidez tranquila, com experiências e sensações agradáveis. Fale com ele com afeto e acaricie sua barriga para que ele sinta seu toque de carinho. Assim, além de fortalecer seu vínculo com o bebê, quando você disser para ele: “tenha bons sonhos”, ele realmente os terá. Afinal, agora você já sabe que os bebês sonham.

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  • Dra. Mariana Mader Pires de Castro

    (CRM: 876879RJ)
  • Graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá;
  • Residência Médica em Pediatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);
  • Residência Médica em Endocrinologia Pediátrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);
  • Certificado de Atuação na Área de Endocrinologia Pediátrica (CAAEP)- RJ;
  • Mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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A CordVida produz o conteúdo desse blog com muito carinho e com o objetivo de divulgar informações relevantes para as futuras mães e pais sobre assuntos que rondam o universo da gravidez. Todos os artigos são constituídos por informações de caráter geral, experiências de outros pais, opiniões médicas e por nosso conhecimento científico de temas relacionados às células-tronco. Os dados e estudos mencionados nos artigos são suportados por referências bibliográficas públicas. A CordVida não tem como objetivo a divulgação de um blog exaustivo e completo que faça recomendações médicas. O juízo de valor final sobre os temas levantados nesse blog deve ser estabelecido por você em conjunto com seus médicos e especialistas.